segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Epigramas, de Marcial



VII, 67

Pedicat pueros tribas Philaenis
Et tentigine saevior mariti
Undenas dolat in die puellas.
Harpasto quoque subligata ludit,
Et flavescit haphe, gravesque draucis
Halteras facili rotat lacerto,
Et putri lutulenta de palaestra
Uncti verbere vapulat magistri:
Nec cenat prius aut recumbit ante,
Quam septem vomuit meros deunces;
Ad quos fas sibi tunc putat redire,
Cum coloephia sedecim comedit.
Post haec omnia cum libidinatur,
Non fellat - putat hoc parum virile -,
Sed plane medias vorat puellas.
Di mentem tibi dent tuam, Philaeni,
Cunnum lingere quae putas virile.

Filénis, mulher-homem, enraba putos 
e, mais ardente que um macho entesado, 
devora por dia onze raparigas. 
De saia arregaçada, joga a bola, 
coberta de pó, e com braço fácil 
maneja halteres pesados para maricas. 
Da palestra poeirenta sai enlameada, 
e submete-se as pancadas e ao óleo do massagista. 
Não janta, não se reclina junto a mesa 
sem antes vomitar umas boas litradas, 
e outro tanto se dispõe desde logo a beber
mal engole dúzia e meia de almôndegas (*)• 
Depois de tudo isto, quando volta ao deboche, 
não brocha (acto que julga pouco viril), 
mas põe-se a devorar a sexo as raparigas. 
Possam os deuses, Filénis, restituir-te o juízo,
tu que achas próprio de homens lamber conas! 

(*) Trata-se de umas almôndegas de carne, alimento próprio dos atletas. 

IX, 4
Aureolis futui cum possit Galla duobus
Et plus quam futui, si totidem addideris:
Aureolos a te cur accipit, Aeschyle, denos?
Non fellat tanti Galla. Quid ergo? Tacet.

Por dois dinheiros de ouro pode-se foder Gala, 
e por outros dois pode-se fazer mais ainda que foder.
Porquê, então, Ésquilo, tu lhe dás dez dinheiros de ouro?
Gala brocha por menos. Porquê então? Para que se cale! 


IX, 27

Cum depilatos, Chreste, coleos portes
Et vulturino mentulam parem collo
Et prostitutis levius caput culis,
Nec vivat ullus in tuo pilus crure,
Purgentque saevae cana labra volsellae:
Curios, Camillos, Quintios, Numas, Ancos,
Et quidquid umquam legimus pilosorum
Loqueris sonasque grandibus minax verbis,
Et cum theatris saeculoque rixaris.
Occurrit aliquis inter ista si draucus,
Iam paedagogo liberatus et cuius
Refibulavit turgidum faber penem:
Nutu vocatum ducis, et pudet fari
Catoniana, Chreste, quod facis lingua. 



Apesar, o Cresto, de teres os colhões depilados, 
um caralho que parece um pescoço de abutre, 
uma cabeça mais lisa que cu de prostituta, 
de não teres nas pernas o mais ligeiro pêlo, 
de sempre aos lábios brancos aplicares a pinça, 
falas constantemente em Cúrios e Camilos, 
em Quíncios, Numas e Ancos, esses heróis cabeludos
de que os livros estão cheios, e com palavras duras 
lanças ameaças e investes com teatros e modas! 
Mas se acaso te surge a frente algum panasca 
recém-saído das mãos do pedagogo, 
cujo pénis já inchado o técnico soltou (**), 
logo o chamas e o levas, e... Quase tenho vergonha, ó Cresto,
de dizer o que faz essa tua língua de Catão! 

(**) Isto é, libertou duma espécie de data de castidade que se punha aos rapazes para evitar o onanismo.

IX, 37

Cum sis ipsa domi mediaque ornere Subura,
Fiant absentes et tibi, Galla, comae,
Nec dentes aliter quam Serica nocte reponas,
Et iaceas centum condita pyxidibus,
Nec tecum facies tua dormiat, innuis illo,
Quod tibi prolatum est mane, supercilio,
Et te nulla movet cani reverentia cunni,
Quem potes inter avos iam numerare tuos.
Promittis sescenta tamen; sed mentula surda est,
Et sit lusca licet, te tamen illa videt. 


Enquanto estás em casa, ó Gala, fazem-te a maquilhagem
em plena Suburra, aprestam-te os cabelos postiços; 
cada noite, ao tirar a túnica tiras também os dentes;
jazes escondida em cem caixinhas de madeira! 
O teu próprio rosto não dorme contigo. Bates-me 
uma pestana que te tiram pela manhã da caixa, 
e não te envergonha exibir uma cona encanecida 
que muito bem podias contar entre os teus antepassados! 
Prometes-me infindos gozos; mas o meu caralho não te ouve,
e, embora seja vesgo, vê bem o que tu vales! 




IX, 69


Cum futuis, Polycharme, soles in fine cacare.
Cum pedicaris, quid, Polycharme, facis?


Quando acabas de foder, Policarmo, costumas ir cagar. 
Mas que fazes tu, Policarmo, quando acabam de enrabar-te?... 


X, 40
Semper cum mihi diceretur esse
Secreto mea Polla cum cinaedo,
Inrupi, Lupe. Non erat cinaedus. 

Andavam sempre a dizer-me que Pola, a minha amante,
dormia às escondidas com um panasca. Ah!, meu caro Zupo,
apanhei-os em flagrante... mas não era panasca!

Tradução de José António Campos em 
Antologia de poesia latina, erótica e satírica, por um grupo de docentes da Faculdade de Letras de Lisboa. Fernando Ribeiro de Mello – Edições Afrodite, Lisboa, 1975


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